Sabores ancestrais ganham voz e espaço em projeto que celebra a culinária afro-brasileira no DF e Entorno

Iniciativa da Fundação Cultural Palmares promove vivências em Planaltina e Novo Gama e transforma cozinhas, terreiros e saberes tradicionais em espaços de memória, sustentabilidade e geração de renda


Muito antes de ocupar restaurantes, festivais e os mais diversos espaços da gastronomia brasileira, a culinária afro-brasileira já era preservada nos quintais, nas cozinhas comunitárias e nos terreiros. Nesses territórios, cozinhar nunca foi apenas preparar uma refeição: é também guardar memórias, transmitir conhecimentos, fortalecer vínculos e manter viva uma herança ancestral.

É a partir dessa compreensão que nasce a segunda edição de Sabores e Saberes – O Tabuleiro da Baiana, projeto da Fundação Cultural Palmares, realizado pelos institutos Lente Cultural e Kitanda Cultura de Terreiro. Entre agosto e setembro, a iniciativa levará oficinas, vivências práticas, rodas de conversa e refeições coletivas a territórios tradicionais de matriz africana do Distrito Federal e do Entorno.

O primeiro ciclo acontece neste sábado (22) e domingo (23), no Ponto de Cultura Terreiro da Vovó Maria Conga, em Planaltina (DF). Depois, nos dias 5 e 6 de setembro, a programação chega à Casa de Oyá, em Novo Gama (GO). O encerramento será realizado em 8 de setembro, na sede da Fundação Cultural Palmares, em Brasília, com participação da chef e Makota Solange Borges.

Foto: Agência/Divulgação


Mais do que reunir pessoas em torno da comida, o projeto pretende contribuir para a preservação, difusão e valorização da culinária afro-brasileira como patrimônio cultural. A proposta também busca fortalecer identidade, autonomia, empreendedorismo criativo e soberania alimentar e nutricional das comunidades tradicionais de matriz africana.

Para a produtora cultural e presidente do Instituto Lente Cultural, Carol Peres, preservar esses conhecimentos significa também construir caminhos para o futuro.

“A salvaguarda dos saberes tradicionais não é apenas uma revisão do nosso passado, mas uma ferramenta indispensável para pensarmos o futuro da cultura no Brasil. Quando reconhecemos e fortalecemos a culinária de matriz africana, estamos valorizando tecnologias ancestrais que unem sustentabilidade, memória e economia criativa. O papel das instituições culturais é justamente criar as pontes e garantir as condições para que esses territórios de resistência continuem sendo os verdadeiros protagonistas da difusão e preservação do nosso patrimônio imaterial”.

A iniciativa parte do princípio de que a culinária de terreiro ultrapassa o preparo de alimentos. Nela estão reunidos conhecimentos transmitidos entre gerações, técnicas de cultivo, conservação e aproveitamento integral dos ingredientes, relações com a natureza, práticas de cuidado e formas de organização coletiva.

Foto: Agência/Divulgacão


Ao conectar patrimônio cultural, segurança alimentar, sustentabilidade e economia criativa, Sabores e Saberes transforma conhecimentos ancestrais em instrumentos de fortalecimento comunitário e de enfrentamento de desafios contemporâneos. O projeto também estabelece diálogo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente nas áreas de combate à fome, agricultura sustentável, igualdade de gênero, trabalho decente e geração de renda, redução das desigualdades e consumo e produção responsáveis.

O tabuleiro como tecnologia ancestral

Para Tata Luazi Luango, coordenador artístico do projeto, o significado do tabuleiro ultrapassa a dimensão gastronômica e se conecta diretamente à trajetória histórica das mulheres negras.

“O Tabuleiro da Baiana transcende o ato de nutrir; trata-se de uma sofisticada tecnologia ancestral e a materialização do legado das mulheres negras. Como liderança de uma comunidade tradicional Angola Kongo, vejo que essa prática é um pilar para o desenvolvimento sustentável das nossas comunidades. O Tabuleiro é um instrumento vivo de manutenção dos saberes tradicionais, estruturando a nossa proteção social e atuando como um vetor essencial na promoção da segurança alimentar e nutricional. Fruto da inteligência as zungueiras, quitandeiras e ganhaderias, que no Brasil colonial serviu de manobra contra-colonial para subsistência das pessoas negras, legado que perdura na contemporaneidade”.

Planaltina abre o primeiro ciclo

A primeira vivência será realizada das 9h às 17h, nos dias 22 e 23 de agosto, no Ponto de Cultura Terreiro da Vovó Maria Conga. Durante os dois dias, o público poderá conhecer o terreiro, visitar a horta comunitária, acompanhar o preparo de receitas tradicionais e participar das refeições produzidas coletivamente.

A programação começa com Terreiro Cerratense, conduzida por Mãe Maria do Cerrado, gestora do Terreiro da Vovó Maria Conga. A atividade apresentará a culinária tradicional de terreiro a partir dos ingredientes, práticas e conhecimentos relacionados ao Cerrado. A experiência inclui visita ao espaço, preparo de um prato típico da culinária cerratense e almoço coletivo.

Mãe Maria do Cerrado também conduzirá a vivência Senzala Gastronômica, dedicada aos conhecimentos transmitidos pelas Pretas e pelos Pretos Velhos. A atividade abordará a relação entre alimentação, memória, espiritualidade e ancestralidade, incluindo visita à horta do terreiro, preparo de um prato tradicional da culinária quilombola e compartilhamento da refeição.

A educadora Ekejie Cleide Morais, da Favela Gastronômica, será responsável pela oficina Cozinhas Comunitárias, dedicada às práticas de segurança alimentar e nutricional. Aproveitamento integral dos alimentos, armazenamento, distribuição e organização de cozinhas populares e comunitárias estarão entre os temas trabalhados.

Já a afro produtora Ekejie Jackeline Silva comandará a oficina Afro Paladar, título também do livro e do documentário desenvolvidos por ela. A atividade tratará das técnicas de registro e documentação do patrimônio gastronômico afro-brasileiro e orientará os participantes na construção de um livro de receitas tradicionais.

Em todas as atividades, a mesa será também espaço de encontro. Os pratos preparados nas oficinas serão degustados coletivamente, reforçando a ideia de que cozinhar, compartilhar e comer são formas de preservar memórias, transmitir conhecimentos e fortalecer relações comunitárias.

De Planaltina a Novo Gama

Depois do primeiro ciclo, o projeto segue para a Casa de Oyá, em Novo Gama, nos dias 5 e 6 de setembro. A segunda etapa manterá a metodologia desenvolvida em Planaltina, acrescentando conteúdos relacionados à agroecologia, sustentabilidade, preservação ambiental e geração de renda nos territórios tradicionais.

A programação terá atividades conduzidas pela Yalorixá Jussara Morais, pela agroecologista Muzenza Imoxicongo Raíssa Felipe, por Ekejie Cleide Morais e por Ekejie Jackeline Silva. Os detalhes dessa vivência serão divulgados posteriormente.

Encerramento em Brasília

A jornada chega ao fim no dia 8 de setembro, a partir das 14h, na Fundação Cultural Palmares, em Brasília. O encontro apresentará os resultados do projeto e terá uma aula-show com a chef e Makota Solange Borges, idealizadora do projeto Culinária de Terreiro e do Festival do Dendê.

A programação de encerramento também contará com lançamento de livro, mesa de debate, apresentações culturais e degustação de pratos preparados especialmente para a ocasião.

Ao percorrer terreiros, hortas, cozinhas comunitárias e espaços culturais, Sabores e Saberes – O Tabuleiro da Baiana propõe uma leitura da gastronomia como território de memória e resistência. A receita, nesse caso, não está apenas no prato: está na transmissão de conhecimentos, na valorização das comunidades e na capacidade de transformar ancestralidade em futuro.

SERVIÇO

Sabores e Saberes – O Tabuleiro da Baiana
Participação: gratuita
Inscrições: por formulário de inscrição

Vivência Formativa – Polo I

Datas: 22 e 23 de agosto de 2026 (sábado e domingo)
Horário: das 9h às 17h
Local: Ponto de Cultura Terreiro da Vovó Maria Conga – Planaltina (DF)
Transporte: ônibus gratuito e exclusivo, com saída do estacionamento do SESI Lab

Terreiro Cerratense
Facilitadora: Mãe Maria do Cerrado
Carga horária: 4 horas

Cozinhas Comunitárias
Facilitadora: Ekejie Cleide Morais – Favela Gastronômica
Carga horária: 4 horas

Senzala Gastronômica
Facilitadora: Mãe Maria do Cerrado
Carga horária: 4 horas

Afro Paladar
Facilitadora: Ekejie Jackeline Silva
Carga horária: 4 horas

Vivência Formativa – Polo II

Datas: 5 e 6 de setembro de 2026 (sábado e domingo)
Horário: das 9h às 17h
Local: Casa de Oyá – Novo Gama (GO)
Transporte: ônibus gratuito e exclusivo, com saída do estacionamento do SESI Lab, no Plano Piloto (DF)

Tabuleiro da Baiana
Facilitadora: Yalorixá Jussara Morais
Carga horária: 4 horas

Cozinhas Comunitárias
Facilitadora: Ekejie Cleide Morais – Favela Gastronômica
Carga horária: 4 horas

Terreiro Sustentável
Facilitadora: Muzenza Imoxicongo – agroecologista Raíssa Felipe
Carga horária: 4 horas

Afro Paladar
Facilitadora: Ekejie Jackeline Silva
Carga horária: 4 horas

Encerramento

Data: 8 de setembro de 2026 (terça-feira)
Horário: a partir das 14h
Local: Fundação Cultural Palmares – Brasília (DF)

Mais informações: Instagram @saboresesaberesdeterreiro