Cores, memória e resistência: Pedro Índio leva os folguedos de Pernambuco à Galeria Pedra do Reino
A cultura popular pernambucana ganha novas cores, formas e significados a partir de 1º de setembro, quando a Galeria Pedra do Reino, no Compaz Ariano Suassuna, no Cordeiro, recebe a exposição “Pernambuco: Folclore e Folguedos”, do artista Pedro Índio. A abertura acontece às 17h30 e dá início a uma temporada que segue até 4 de outubro, com entrada gratuita e visitação diária.
Mais do que colocar personagens e cenas dos folguedos nas telas, Pedro Índio propõe um mergulho na memória cultural de Pernambuco. Maracatu, frevo, pastoril e ciranda aparecem em suas pinturas carregados de movimento, ancestralidade e identidade, transformando manifestações populares em registros artísticos de uma tradição que permanece viva justamente porque continua sendo reinventada.
Nascido no Recife, morador de Olinda e descendente do povo Fulni-ô, de Águas Belas, no Agreste pernambucano, Pedro Índio construiu uma trajetória marcada pela multiplicidade. Pintor, escultor, entalhador, compositor e músico, ele transita por diferentes linguagens para falar de um mesmo universo: as raízes, os saberes e as manifestações que ajudam a contar a história do Nordeste.
| Reprodução de Tela/ Zest Artes |
A exposição reúne trabalhos nos quais o artista combina realismo e simbolismo. Corpos em movimento, figurinos, instrumentos, ritos e personagens ganham nas telas uma dimensão que ultrapassa a representação estética. São imagens que procuram traduzir a força coletiva das brincadeiras populares e, ao mesmo tempo, lembrar que por trás de cada manifestação existem mestres, brincantes, comunidades e gerações responsáveis por mantê-las de pé.
A força de sua produção já foi destacada pelo pintor, arquiteto e crítico de arte Bernardo Dimenstein. Para ele, a obra de Pedro Índio revela “expressões maduras de um artista que sabe muito bem o que quer”.
Em outra avaliação, Dimenstein ressaltou justamente a diversidade da produção do artista: “Falar de Pedro Índio e de sua obra é uma tarefa simples pelo fato de Pedro ser um artista cuja obra se apresenta de uma leitura direta, forte, sem artifícios, e é também tarefa difícil porque Pedro na sua multiplicidade de linguagens: escultura, pintura, desenho e gravura, deixa ao espectador a oportunidade de conhecer diversas potencialidades de sua criação.”
O crítico também destacou a identidade presente na produção do artista ao afirmar que “poucas vezes vamos encontrar um artista que através de seu trabalho demonstra tanto amor pela forma e tamanha facilidade de deixar sua marca pessoal em tudo o que faz”.
Uma cultura que não cabe em uma moldura
O próprio título da mostra estabelece uma conexão importante entre folclore e folguedos. De um lado, estão conhecimentos, crenças, narrativas, costumes e modos de fazer compartilhados ao longo do tempo. Do outro, manifestações que transformam esse patrimônio em música, dança, representação, religiosidade, festa e convivência.
Em Pernambuco, essas expressões carregam influências indígenas, africanas e europeias e continuam se transformando de acordo com os territórios e com as novas gerações. É justamente essa cultura em permanente movimento que Pedro Índio procura registrar.
A escolha do Compaz Ariano Suassuna como endereço da exposição amplia ainda mais o alcance da iniciativa. Ao ocupar um equipamento público voltado à convivência, cidadania e formação, a arte deixa de estar restrita aos circuitos tradicionais de galerias e chega mais perto de crianças, jovens, famílias e moradores da Zona Oeste do Recife.
Para a curadora e gerente da Galeria Pedra do Reino, Ana Veloso, a exposição convida o público a reconhecer, por meio da arte, “a riqueza e a diversidade das tradições populares que permanecem vivas e se renovam no tempo”.
| Foto:Ivelise Buarque |
Livro ganha novo capítulo no Recife
A abertura da exposição também será marcada pelo relançamento do livro “Pernambuco: Folclore e Folguedos”, publicação que reúne 35 obras de Pedro Índio e uma pesquisa dedicada às expressões culturais do Estado.
Lançado originalmente em novembro de 2024, durante a Fliporto, o livro nasceu de um projeto de circulação e valorização da cultura popular incentivado pela Lei Rouanet. A publicação reúne imagens e informações sobre manifestações como caboclinho, ciranda, frevo, pastoril e maracatu, com textos do historiador Antonio Campos.
A proposta ultrapassa o registro artístico. O material foi pensado para alcançar estudantes, educadores, pesquisadores, turistas e leitores interessados na diversidade cultural pernambucana. A publicação também incorpora recursos de acessibilidade, incluindo conteúdos com audiodescrição e material em inglês.
Na noite de abertura, Pedro Índio ainda realiza uma performance musical, reforçando a característica multifacetada de sua produção. A iniciativa aproxima pintura e música e evidencia que, para o artista, as diferentes linguagens fazem parte de uma mesma experiência de criação, memória e pertencimento.
Ao colocar os folguedos pernambucanos dentro de uma galeria e, simultaneamente, aproximá-los do público por meio de um equipamento de convivência social, a exposição cumpre uma função que vai além da estética: preserva memória, provoca reflexão e reafirma que cultura popular não é peça de museu — é patrimônio vivo, feito por pessoas e reinventado a cada geração.
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